Tecnologia · 14/10/2026
A fabricante holandesa ASML afirma que empresas já demonstram interesse por equipamentos para 2029 e 2030. O gargalo ajuda a explicar por que a expansão da inteligência artificial depende de muito mais do que software.
Os modelos de inteligência artificial estão ficando mais poderosos, mas existe uma etapa essencial que não aparece na tela dos usuários: fabricar os processadores que executam esses sistemas. Sem máquinas industriais extremamente precisas, não há como produzir chips avançados em grande escala.
É nesse cenário que a holandesa ASML ganhou ainda mais importância. Em 14 de outubro de 2026, a empresa informou que clientes já procuram reservar equipamentos para fabricação de semicondutores com entregas previstas até 2029 e, em alguns casos, 2030. A procura sinaliza que os investimentos na infraestrutura de IA continuam elevados, apesar das dúvidas sobre o retorno financeiro do setor.
O que a ASML fabrica?
A ASML não produz os chips que vão dentro dos computadores ou servidores. Ela fornece máquinas usadas pelas fábricas de semicondutores. Parte desses equipamentos utiliza uma técnica chamada litografia ultravioleta extrema, ou EUV, capaz de desenhar estruturas microscópicas nas pastilhas de silício.
Quanto menores e mais precisas essas estruturas, maior tende a ser a capacidade de integrar componentes em um processador. É por isso que a tecnologia se tornou estratégica para empresas que produzem chips de alto desempenho. Fabricantes como TSMC, Samsung e Intel estão entre os grandes clientes da companhia.
O processo industrial é complexo. Envolve óptica de alta precisão, controle de vibrações, materiais especializados e integração com inúmeras outras etapas. Construir uma fábrica de chips não significa apenas comprar um prédio e instalar servidores: é necessário reunir uma cadeia de fornecedores difícil de reproduzir.
Por que a fila é tão longa?
Com a expansão dos centros de dados de IA, fabricantes de processadores e memórias passaram a planejar novas linhas de produção. Os equipamentos são caros, complexos e levam tempo para ser fabricados, instalados e ajustados.
A ASML já havia anunciado planos para ampliar sua capacidade em cerca de 30% em 2027 e novamente em 2028. Mesmo assim, seu presidente-executivo, Christophe Fouquet, afirmou que a expansão prevista pode não atender toda a demanda. A companhia estuda aumentar ainda mais a produção e atualizar máquinas existentes para fabricar mais chips por hora.
Os números financeiros refletem essa pressão. No terceiro trimestre de 2026, a ASML registrou aproximadamente 11,7 bilhões de euros em vendas e 4,96 bilhões de euros em lucro líquido. A companhia elevou sua projeção de vendas para o ano inteiro à faixa de 44 bilhões a 45 bilhões de euros.
O que isso muda para a inteligência artificial?
A oferta de chips influencia quanto custa treinar novos modelos e manter serviços como assistentes virtuais, ferramentas de programação e sistemas corporativos. Mesmo empresas que desenvolvem apenas software dependem indiretamente dessa infraestrutura.
Quando a fabricação não acompanha a procura, podem surgir prazos maiores, pressão nos custos e necessidade de escolher quais projetos receberão capacidade computacional primeiro. Isso afeta fabricantes, empresas de nuvem e negócios que utilizam IA em escala.
Também explica por que países e empresas investem tanto em autonomia tecnológica. Ter acesso às máquinas e à capacidade de fabricação é uma vantagem competitiva, mas não elimina a dependência de outros componentes, materiais e profissionais especializados.
Significa que o boom da IA vai continuar sem limites?
Não. Pedidos antecipados mostram a confiança atual dos clientes, mas não garantem que todas as previsões de investimento se concretizarão. Mudanças na economia, nos custos de energia e na própria eficiência dos modelos podem alterar a demanda futura.
O que o anúncio deixa claro é que a corrida da inteligência artificial não acontece somente entre empresas de chatbots. Ela também passa pelas fábricas, pelas máquinas industriais e pela capacidade de transformar projetos de chips em produtos reais.
A próxima grande disputa da IA pode ser decidida tanto nos laboratórios de software quanto nas linhas de produção dos semicondutores.
Fonte original em inglês: Reuters

